No meu prato: 200g de copa lombo gorda, abóbora e couve flor. Composição que muita nutri considera inadequada, gordurosa demais. Pois é, a estética da alimentação está moldando o sentimento de “adequação” das mulheres.
Vivemos a era da clean "rich" girl: pratos cheios de plantas, grãos integrais, quinoa, chia, frutas cortadas em cubos perfeitos, um fio de mel estrategicamente posicionado. Tudo isso vestindo Alo Yoga. A comida virou código de conduta, se você não come “limpo” low fat vem a sensação de estar errada, desleixada, pobre. De ser… sebosa.
Mas vamos falar a real: nem sempre comer bonito é comer bem e nem o prato “instagramável” plant based é o prato que nutre. Muitas dessas dietas LIMPAS são pobres em proteína, em gorduras e principalmente em densidade nutricional (depois venho explicar o conceito).
Viramos personagens de uma narrativa onde comida de verdade é “suja”, “grosseira”, “masculina”. Enquanto isso, suco verde com colágeno em pó virou símbolo de feminilidade e autocontrole. Uma inversão que empobrece o corpo e, pior, a relação da mulher com sua fome. Porque é disso que se trata: a mulher limpa não sente fome, não transpira, não tem cheiro, não incha, não come carne…muito menos gordura.
Ela toma super café com bebida vegetal (não chame jamais isso de de leite) e chia, faz yoga em jejum e sorri com um shake de whey pós treino, enquanto seu corpo implora por comida. A indústria do bem estar sabe disso e usa a estética clean girl, como uma embalagem perfeita para te vender restrição como elegância. A estética clean na nutrição é só mais uma ferramenta de controle dos nossos corpos e desejos intrínsecos por gordura.
Sim, somos feitas de gordura e até nossa fertilidade depende dela. No entanto, fomos treinadas a temer o alimento que mais nos constitui. Quando escolho a sobrecoxa com pele, não é só nutrição: é subversão. É um corpo dizendo “sim” pra saciedade, construção e prazer. É um recado direto contra a cultura que quer mulheres leves, pequenas, silenciosas e permanentemente em déficit calórico.
Eu me considero uma quarentona bem sebosa. Também uma nutricionista subversiva, questionadora, livre e no shape, comendo mais que homem.
E vc?